Violência no Namoro - À Conversa com a Psicóloga Escolar

Em Dia dos Namorados, 14 de fevereiro, faz sentido que também se abordem temáticas muitas vezes esquecidas por não condizerem com gestos de amor.

A violência no namoro é uma realidade que hoje nos trouxe à conversa com a nossa psicóloga escolar Liliana Castro.

Tiago Gomes – Boa tarde, Dra. Liliana, o assunto que nos trouxe aqui hoje afeta toda a comunidade escolar, não é?

Dra. Liliana – Certo, a escola constitui o local onde os jovens permanecem a maior parte do tempo e estabelecem as primeiras interações e experiências amorosas. Por isso, os agentes educativos possuem um papel importante na identificação e sinalização das manifestações de violência no namoro.

Raquel Fernandes – Há um padrão neste tipo de violência? Isto é, normalmente as raparigas são as vítimas e os rapazes são os agressores? Ou há outro padrão?

Dra. Liliana – Existe um padrão, a maioria das vítimas são raparigas e os agressores são rapazes.

Tiago Gomes – Qual é papel da escola? Como se educa sem interferir na privacidade de cada um?

Dra. Liliana – Toda a comunidade escolar deve estar envolvida na sensibilização dos jovens na prevenção da violência do namoro. Por um lado, deve haver um trabalho de prevenção da violência do namoro, sensibilizando a população jovem e mobilizando diversos agentes educativos e formativos para a problemática da violência do namoro. Por outro lado, temos a deteção e intervenção em situações de violência. Estas podem ter graus diferentes de intensidade e gravidade e requererem intervenções diferenciadas. Na intervenção junto de crianças e jovens, existem alguns princípios orientadores que importa ter em conta:

  • Interesse superior da criança e do jovem;
  • Privacidade;
  • Intervenção precoce;
  • Intervenção mínima;
  • Proporcionalidade e atualidade;
  • Responsabilidade parental;
  • Primado da continuidade das relações psicológicas profundas;
  • Prevalência da família;
  • Obrigatoriedade da informação;
  • Audição obrigatória e participação;
  • Subsidiariedade.


Consoante a gravidade dos atos de violência, poderá ser necessário apresentar denúncia às forças de segurança e providenciar tratamento de saúde/hospitalar.

Quanto a educar sem interferir na privacidade, na promoção de ações de prevenção é mais simples não interferir na privacidade. Na promoção e integração de parcerias, na avaliação, diagnóstico e intervenção deve sempre ser salvaguardada a confidencialidade, à exceção do registo/reporte da situação (da qual deve dar conhecimento ao/à aluno/a).


Raquel Fernandes – Hoje em dia, fala-se muito em linguagem emocional… O que é a linguagem emocional?

Dra. Liliana – A linguagem emocional traduz os nossos pensamentos, ideias, sentimentos e necessidades. Quando adquirimos competências em habilidades básicas de linguagem, essas contribuem para o crescimento de outras competências nos domínios cognitivo, emocional e social. A competência emocional descreve a capacidade que uma pessoa tem de expressar as suas próprias emoções com total liberdade, e advém da inteligência emocional, que é a capacidade de identificar emoções; a competência aprende-se/adquire-se e determina a habilidade que uma pessoa tem para se relacionar de forma construtiva com outras pessoas.

Tiago Gomes – Será pelo facto de as pessoas estarem mais despertas, mais educadas e mais atentas que o número de casos é maior? Isto é, na realidade há mais queixas pois as pessoas estão mais atentas às situações?

Dra. Liliana – O aumento de casos resulta de estarmos a evoluir no que diz respeito à consciencialização da violência. Anteriormente, não era dada importância à violência psicológica, e o mesmo acontece com a violência praticada através das redes sociais. Existem novas formas de violência e, ao considerá-las, automaticamente o número de participações tende a aumentar.

Raquel Fernandes – Enquanto psicóloga escolar, como se age perante uma situação destas?

Dra. Liliana – É possibilitado à vítima apoio psicológico e, dependendo da gravidade da situação, é proposto o encaminhamento do caso para associações/gabinetes especializados. Também se promove junto dos jovens a construção de relações afetivas igualitárias, livres e de respeito mútuo.

Raquel Fernandes e Tiago Gomes – Muito obrigado, Dra. Liliana, por nos conceder esta entrevista.

A violência no namoro é um assunto delicado, que pode ganhar contornos difíceis, com consequências muito gravosas, quer psicológica, quer fisicamente.
Infelizmente, não é fácil para um jovem dos dias de hoje distinguir a fronteira entre o que é um contacto físico que possa ser interpretado como uma brincadeira daquele que passa a ser uma agressão. Também não é fácil entender que o comportamento de controlo e humilhação não é tão linear para quem está a ser vítima.
A EPADRPL tem procurado assim desconstruir estas imagens nos jovens, trabalhando o seu lado emocional, educando-os emocionalmente.