A Grande Beleza
No dia 27 de janeiro, da parte da manhã, a Encarregada Operacional, Madalena Barbosa, mostrou-me umas fotos, que tinha tirado da parte exterior da Escola. Fotos do lago e de um aluno, o Miguel Fernandes, a olhar para o lago, para os peixes e a alimentá-los. A senhora Madalena perguntou-me se eu queria fazer alguma coisa com as aquelas fotos bonitas e reveladoras da sensibilidade do Miguel.
Ao ver as fotos, lembrei-me imediatamente de um dos meus filmes de eleição, La gran beleza, de Paolo Sorrentino. O filme é um grande ensaio sobre a vida, a forma como o ser humano a encara e valoriza os pequenos momentos de felicidade, os pequenos nadas revestidos de importância. Logo no início do filme, o personagem principal diz ao telespetador: “Procurava a grande beleza e não a encontrei”. Esta nota inicial marca toda a trajetória de ação da personagem, que a partir daquele momento tem como objetivo principal encontrá-la.
Sinto que todos nós, perdidos na confusão e monotonia dos dias, passamos o tempo em busca de satisfação pessoal, profissional, cumprir objetivos, metas e só ocasionalmente paramos para observar, viver o pequeno nada e senti-lo. Talvez devêssemos ser mais como o Miguel, que usufrui do verde da Escola, observa as folhas, o lago, os peixes. Sente à sua maneira e aprecia o que para si é belo.
Lembremo-nos disso mais vezes, mais dias. Até porque é o mesmo Jep Gambardella, personagem principal do filme, que antes do cair do pano também confronta o telespetador, dizendo: “É assim que sempre acaba. Com a morte. Mas primeiro houve vida. Escondido sob o blá, blá, blá. Está tudo resolvido sob a tagarelice e o barulho. Silêncio e sentimento. Emoção e medo. Os lampejos desfigurados e inconstantes de beleza.”
Helena Barroso
Revista Perfil